Eu e ela, ela e eu! Desvendando o nosso processo de amamentação. *APLV + hipoplasia mamária

De todos os sonhos que eu tinha em relação a maternidade, meu parto e a amamentação certamente eram os mais importantes e desejados. Me sinto muito privilegiada pois programei a minha gestação e tive tempo para me informar e ter o parto dos meus sonhos (mesmo tendo durado dias…)! Tudo que eu acredito foi praticado e eu me senti a mulher mais respeitada e poderosa do mundo! Se a maternidade fosse apenas parir, eu queria engatar um filho atrás do outro e ter muitas e muitas barrigas e me reconhecer a cada parto! E, em seguida disso chegou o momento de maior ternura que já experimentei na vida: amamentação.

Assim que a Aurora nasceu (tivemos um lindo parto domiciliar que já foi relatado por mim e pelo pai dela em: https://liasfoggia.wordpress.com/humanize-se/) ela veio para meus braços, chorou um pouquinho, me encarou com um olho só e após alguns instantes eu ofereci o peito! Ela prontamente abocanhou meu seio (com uma pega liiiinda) e começou a mamar! Eu estava em êxtase! Ocitocina do parto mais a felicidade de ver a pequena mamando! Isso sim é o paraíso…

Com o passar dos dias veio o desafio do puerpério… todos hormônios, medos, crenças, cansaço, dores e dúvidas que todas as mães enfrentam foram somados ao fato de que a Aurora não estava ganhando peso. Na semana seguinte do parto, quando minha enfermeira obstétrica foi me ver no pós-parto fiz a famosa pergunta “será que estou tendo leite? Aperto meu seio e não sai nada!!!”. Ela pacientemente me explicou e ordenhou meu peito e me mostrou o leite (tem toda uma técnica, mas hoje é facinho!). Meu peito rachou e sangrou, por alguns dias usei pomadas e um bico de silicone mas aos poucos eu vi que a melhor coisa era “aguentar o tranco” que o período dolorido ia passar. Aurora nasceu grande (3.935kg) e perdeu quase 600 gr e, embora seja normal perder peso, já ficamos preocupados (pra variar)!

Três dias após o parto recebemos a visita de uma pediatra-neonatologista em nossa casa para avaliar a Aurora, na falta da balança deixamos para pesar na ocasião da visita da enfermeira uma semana após. Depois da liberação do mecônio a Aurora não fez mais cocô e começamos a ficar preocupados e adiantamos a reconsulta na pediatra para alguns dias antes dela fazer um mês. Chegando lá, apesar de estar ótima, descobrimos que ela havia aumentado apenas 75 gr de seu peso da pesagem uma semana após o parto.

Eu considero que boa parte do meu problema de amamentação começou aí.

Sim, eu concordo que mãe, principalmente as de primeira viagem, são (quase) todas neuróticas (eu sou!), mas não, de modo algum eu acho que se justifica a postura que a pediatra teve conosco.

Na sua primeira consulta conversamos sobre o bico (chupeta) e eu falei que não queria dar para Aurora mas a médica insistiu que era um consolo e que era para eu dar. Além disso, já nesse dia deixou escrito atrás da receita médica qual fórmula ela devia tomar SE ela não ganhasse o peso que deveria ganhar… Essas pessoas não tem noção do poder dessas entrelinhas… Se em termos de parto sofremos com o excesso de cesáreas induzidas e desnecessárias, na pediatria sofremos com a falta de confiança na capacidade das mães e na introdução dessas fórmulas por qualquer motivo.

Quando chegamos na reconsulta com a queixa da falta de cocô a médica mandou tirar a roupa pra pesar (sem nem falar ou encostar (com) nela). Eu já sentindo o que estava por vir despi a pequena e fomos pesar. Alí acusamos o baixo ganho de peso e eu comentei que não queria dar leite artificial pra ela e nesse momento começou a enxurrada: ela disse que se eu não nutrice a criança isso afetaria o desenvolvimento mental dela, puxou uma tese-dissertação-ouqualquercoisaqueovalha e começou a falar, falar e falar. Em nenhum momento parou para ouvir como haviam sido meus últimos dias, o que eu estava passando… Não tentou me ajudar a achar as razões não acusatórias para o baixo ganho de peso… Só deu a entender que eu não estava alimentando a Aurora adequadamente e que eu deveria dar o bico pra ela (como se chupar um silicone fosse engordar alguma criança!!!); e pediu para que após amamentar a Aurora eu ordenhasse mais 60 ml de leite e desse de mamadeira para ter certeza que ela estava mamando.

Bom, sai do consultório muito triste e nervosa (apavorada pra dizer a verdade). Foi horrível e depois disso sim experimentei dias que eu tentava ver se tinha leite no peito e não saia nem uma gota!

Aprendi da pior forma que os aspectos psicológicos interferem e muito na amamentação.

E aprendi que a quarentena deve ser respeitada não apenas pela recuperação de possíveis intervenções que tenham sido necessárias ou pela disposição da mulher, até porque experimentei a benção de um parto natural maravilhoso e dias depois já estava ótima nesse sentido, mas não somos partes de um todo e por mais que a cicatrização de meus poucos pontos estivesse ótima, eu estava me tornando mãe e não me permiti a tranquilidade necessária para que isso se organizasse de modo mais orgânico. Foi um erro grave que foi piorado com a péssima postura de uma pediatra. Meus medos e inseguranças borbulhavam desde então e eu fiquei muito fragilizada.

Seguindo o barco… A sugestão da médica de ordenhar pós-amamentação foi praticamente um “bullying” porque se meu fluxo de leite estava pequeno e eu amamentava, eu quase esfolei meu seio tentando ordenhar até que comentando com minhas amigas e percebi que meu sucesso seria improvável… Eu precisava de tempo (e tranquilidade ) para minha produção se regular…

Troquei de médica.

Conheci uma homeopata competente que me prescreveu chás, fitoterapia e homeopatia e contei com meus amigos para me mimar e encher de comida! Além disso fiz acupuntura!!!

Não sei direito o que fez efeito afinal era tanta coisa, mas meu leite aumentou. Infelizmente, meu peso também. Dos dez quilos que eu havia perdido no parto, ganhei oito sem nem perceber. As acupunturas melhoravam meu fluxo de leite semana após semana e assim fui indo até que cheguei num ponto que estabilizei. No meio desse tempo minha filha ainda estava ganhando muito pouco peso até que cedi a complementação (feita via sonda – sistema de relactação – que descobri conversando com amigos e pesquisando e não por orientação médica) e ela engordou bastante em uma semana. Porém em seguida estabilizou seu ganho de peso numa média não muito alta e eu, insatisfeita de dar fórmula queria um “plano de desmame” do leite artificial pois acreditava (e estava estudando muito) na minha capacidade de alimentar a Aurora.

Foi aí que procurei a Tarsila, uma consultora de amamentação daqui de Salvador, que além de conversar bastante comigo e ajudou a corrigir a pega da Aurora e como fazer a ordenha… e me indicou o Banco de Leite do Iperba. Foi lá que conheci a Dr. Ana Paz.

Preciso salientar que no dia que fui na última consulta com a médica homeopata desisti da consulta porque esperei meia hora e ninguém chegou no consultório (marquei a consulta as oito horas e as oito e meia não havia ninguém no local), tive que trocar minha filha no chão do prédio e fui embora pois a consulta no Iperba era as nove horas. À caminho recebi uma ligação para confirmar a consulta e assim que cheguei fui recebida para triagem da Aurora. A médica anterior embora fosse competente tinha essa questão do horário que para mim é péssima. TODAS as consultas eu tive que esperar, mesmo sendo a primeira consulta do dia (e sendo a última esperei mais de duas horas). Acredito que atrasos acontecem eventualmente, mas fazer disso um hábito, principalmente quando se atende crianças recém-nascidas é inadmissível.

Ao conhecer a Dr. Ana minhas perspectivas mudaram completamente. Ela partilha da mesma opinião que a minha sobre bicos/chupetas/mamadeiras e me estimulou muito no caminho da amamentação e começamos traçando um plano de desmame.

Eu poderia descrever aqui um diário com nossa evolução, mas de modo muito resumido, fomos diminuindo a fórmula aos poucos, mas sem nenhum complemento a Aurora perdia peso. Além da homeopatia e fitoterapia, usamos alopatia e estimulei o peito de diversas formas. Fiz uma sessão (milagrosa) de microfisioterapia (a qual ainda devo retornar) de onde saí com os seios cheios de leite… enfim, construímos um caminho muito plural de tentativas e embora Aurora estivesse extremamente saudável (fazíamos acompanhamento semanal onde a médica examinava a pequena detalhadamente e chegamos a fazer exames de sangue, fezes e urina) e nunca parecesse irritada de fome não conseguíamos nos desvencilhar do leite artificial. Nós e a médica por várias vezes nos entreolhávamos no consultório sem saber o que fazer e mantínhamos o que estava funcionando: leite materno em livre demanda e complementações durante o dia (durante a noite só o peito).

Conseguimos trocar a sonda pelo sistema de copinho (por volta dos três meses e meio) e isso foi uma vitória! Eu já estava exausta de além de amamentar ter que complementar via sonda e além disso Aurora andava se irritando porque queria que o peito tivesse sempre o fluxo da sonda. Meu marido foi muito dedicado nessa época e começou a administrar o leite com conta gotas e aos poucos introduziu o copinho. Mérito totalmente dele!!! E assim conseguimos diluir um pouco essa responsabilidade aqui em casa! Assim permanecemos… calculando grama por grama que conseguíamos ganhar e tentando pensar positivo quando encarávamos as perdas de peso… até que alguns gruminhos que pareciam sangue apareceram nas fezes da nossa pequena!

Mesmo com os exames não acusando quaisquer anormalidades, sabíamos que algo estava errado e foi aí que nossa pediatra pensou no APLV (alergia a proteína do leite de vaca). Cortei laticínios e me tornei a louca dos rótulos e trocamos a fórmula da Aurora para uma a base de aminoácidos. Sumiram os grumos e o peso dela começou a aumentar. Bingo! Aurora é alérgica ao leite de vaca!

Sou muito grata porque muitas mães descobrem isso muito tarde e nossa pediatra foi extremamente competente e também sou muito (mas muito meeeesmo) grata porque a reação dela é super leve em comparação aos casos que lemos e acompanhamos na internet.

Assim Aurora foi ganhando peso e nós fomos ficando esperançosos de nos tornarmos “independentes” de qualquer fórmula, mas percebíamos que quanto mais ela crescia, mais gostava dos copinhos de leite. Embora ela seja apaixonada pelo peito (e eu também), ela aceitava bem a fórmula e sem isso ela perdia peso. Aí vem a segunda parte da estória….

Eu tenho uma prótese de seio. Não é algo que eu costumava espalhar porque antes dela tinha muita vergonha de como meu peito parecia, mas sinto que no momento é legal dividir isso pois outra mulher pode estar passando pelo que passei. Eu sempre tive muitas dúvidas sobre a possibilidade da cirurgia atrapalhar a amamentação e diante da “falta de leite” isso me martelava a cabeça dia após dia. Conversando com a minha mãe comentamos sobre o fato de que na época da cirurgia o médico comentou que minha mama não era desenvolvida e também recordamos que minha primeira ginecologista falou que meu seio não desenvolveu. Até cheguei a comentar isso em alguma consulta, mas o fato é que isso é tão improvável que não insisti e acabou que até a Aurora completar seu quinto mês de vida não questionamos minha capacidade de produzir leite suficiente. Embora após a microfisioterapia eu perceba que meu peito sempre tinha leite (as vezes mais, as vezes já tinha só um pouquinho pois ela já tinha mamado tudo) e nunca consegui ordenhar leite. Começava saindo bastante e tal, mas em seguida não saia mais nada! Eu tentei tirar com a mão, comprei uma maquinha manual e experimentei uma elétrica e em todas situações acontecia de “acabar” o leite… Eu conseguia tirar no máximo 40 ml, e só!

Após descoberto o APLV estávamos em uma consulta super satisfeitos com o peso da Aurora e conversamos sobre o fato de que não consigo tirar leite. Pensando que pudesse ser “erro na técnica de ordenhamento”, Dr. Ana tentou ordenhar e bingo: começamos bem e logo parou de sair leite. Foi só aí que insisti na questão da mama não desenvolvida. Conversamos bastante, mostrei fotos e olhamos imagens diversas de “problemas nos seios” para que eu identificasse como se parecia o meu antes de operar. E após uma ultrassonografia mamária confirmamos uma hipoplasia mamária. Ou seja, de fato meu seio não teve um desenvolvimento pleno e nada do que eu fiz ou pudesse ter feito mudaria isso. A cirurgia não atrapalhou em nada. Nasci assim e pronto,

A sensação de descobrir isso foi dúbia. Fiquei muito triste em saber que não conseguirei amamentar exclusivamente Aurora e nem um outro filho que eu venha a ter e me senti muito “incompleta”; mas ao mesmo tempo pude atestar que de fato fiz o possível e o impossível para amamentar.

Aurora hoje ainda mama no peito (e se pretendemos que isso perdure por muito tempo) e sempre esvazia minhas mamas antes de tomar seus copinhos de fórmula e eu tive que lidar com o fato de que isso foge ao meu controle. O improvável aconteceu e eu que achava que estava em débitos com a minha filha por não conseguir dar a ela o que ela precisava, na verdade conclui que driblei uma especificidade do meu corpo e consegui dar à Aurora mais do que é esperado na minha situação. Foram quase 5 meses de tentativas múltiplas, fórmulas, ordenhamentos, técnicas, leituras e pesquisas para perceber que nem sempre as coisas saem como a gente quer. Temos limites. Orgânicos.

Esse foi sem dúvida mais uma etapa da maternidade que tive que vencer. O perda do meu primeiro bebê foi a primeira (falo isso no relato de parto), o parto a segunda e a amamentação a terceira. E tenho certeza que outras tantas estão por vir, mas hoje me sinto mais forte. Aliás, a cada dia me sinto mais mãe, e olha que para eu me sentir assim com todas essas constatações não foi fácil!

Dia após dia essa pequena está me ensinando…

Hoje eu sei que coisas que antes eram tão importantes são secundárias e pequenas…

Eu sei que numa mãe cabe mais amor do que se pode mensurar…

Sei que querer nem sempre é poder e que gerar muita expectativa sobre a vida só a torna mais desafiadora…

Que meu bem estar não se resume mais a mim mesma…

E que mesmo com tudo isso eu tenho vivido os momentos mais gratificantes da minha vida…

É só seguir em frente com amor e deixar acontecer que a vida vai traçando seu rumo.

Lia143

amamentacao

4 comentários em “Eu e ela, ela e eu! Desvendando o nosso processo de amamentação. *APLV + hipoplasia mamária

  1. Entendendo cada dia mais a insistência de Carol para nos aproximar.
    Muito emocionada com o seu relato, Lia. Sentindo (ou re-sentindo) na pele cada fase que você passou.
    Espero que esteja mesmo em paz por ter feito o melhor por Aurora. Ela tem pais incríveis!

  2. Nossa, to Até arrepiada com o Deu relato. Minha bebe tb se chama Aurora e tb tenho hipoplasia mamaria e ela tb tem alergia a proteina do leite. Comecei a complementar com formula quando ela tinha 6 semanas depois de perder muito peso e ate ter que ficar internada no hospital para descobrir pq não ganhava peso suficiente. Sofri muito com isso mas graças a deus ainda mama no peito e não tem cara de que vai parar Tao cedo. Obrigada pelo seu relato!!!

  3. Nossa muito bom ler esse post, estou eu cá pesquisando sobre microfisioterapia na amamentação e achei você, minha bebê está com 36 dias e tenho pouquíssimo leite, estou tendo que complementar, e o pior é que ela está engordando muito.

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