* Como chegamos no Parto Humanizado?

Acredito que minhas escolhas profissionais me fizeram atentar para o respeito com o corpo.

Ao estudar dança comecei a perceber como tudo se interliga perfeitamente em nós mesmos. Nesse nós que muitas vezes insistimos em chamar de nossa máquina, mas que na verdade de sistemática não tem nada, somos apenas o que decidimos ser… o que comemos, o que sonhamos, o que fazemos e, claro, como nascemos. Eu poderia citar vários momentos e estórias que fortaleceram e construíram meu desejo de trazer a Aurora ao mundo do jeito que fizemos, mas acho que basta entender que eu e o meu marido-pai-dela somos isso nesse momento e eu pretendo aqui contar não apenas como foi meu parto, mas também como tivemos a certeza de que essa era o caminho certo para nós.

De antemão peço desculpas pois tenho certeza que isso não será breve e mesmo depois de ler/escrever tudo, muitas coisas, quiçá a maior parte delas, ainda estará de fora desse relato, tamanha sua complexidade… mas eu sinto necessidade que seja assim e espero que algumas pessoas sintam necessidade de ler tudo isso também! Mas também se não for assim, basta saber que um dia nossa pequena poderá sentar e ter um registro do meu eu hoje, e quem sabe ela possa me perdoar por todos os erros que já sei que irei cometer só entendendo o quão amada, esperada e planejada ela foi! E o quão verdadeira foi a sua chegada em nossas vidas.

Também adianto desculpas para as pessoas que por ventura se sintam de alguma forma julgadas pelas nossas decisões, compreendam que não é por mal, mas para parir do jeito que fizemos precisamos nos entregar com-ple-ta-men-te e isso faz com que às vezes pareça que estejamos querendo balizar as experiências dos outros através da nossa. Isso não é legal e na verdade é uma grande besteira, mas pode acontecer pois é tudo muito recente e foi muito intenso. Eu sinto muitíssimo pelas mulheres que não conseguiram (e não conseguem) vivenciar um parto como elas desejam (seja ele como for) e sinto muitíssimo que ainda soframos com falta de informação, o que muita vezes (não todas, mas com demasiada frequência) nos leva a tomar decisões que poderiam ser diferentes. Sinto também pelo nosso sistema de saúde doente que leva muitas mulheres ao sofrimento, bem como sinto por alguns médicos (pois me nego a achar que todos são desonestos e tudo mais que envolve esse discurso até porque eu contei com pessoas maravilhosas nessa minha caminhada), que tentam fazer o que podem para tornar todo essa sistemática mais possível. Na verdade eu me orgulho de estar rodeada de mulheres muito donas de si! Meu círculo pessoal-familiar é cheio de bons percursos de nascimento e muito diversificado. E é bom já começar que dizendo que isso é o grande mote da humanização: informação e respeito à mulher.

Sim, parto humanizado não significa parir na água sem anestesia (muito embora essa tenho sido nossa emergência e foi assim que aconteceu). Parto humanizado significa saber do que se trata cada procedimento, cada detalhe que envolve o nascer (o que é parto natural? Como funciona uma cesárea? Um parto normal-frank? Anestesia? Episiotomia? VBAC? Nitrato de prata? Etc.!!!) e após isso tomar decisões e ser respeitada nesse processo. É somente isso. Seja ele algum procedimento mais natural ou envolva escolhas mais tradicionais, desde que a mulher se sinta segura e respeitada.

No nosso caso chegamos nisso lendo, estudando e pesquisando e acho que esse é o melhor caminho. Acho que eu sempre quis um parto normal, pelo menos não me lembro de ter cogitado uma cesárea (que não fosse necessária) na minha vida! Mas eu não tinha ideia do que isso significava exatamente. Não sei dizer exatamente quando comecei a “tender para esse lado mais humanizado”, mas como disse no início do texto, acredito que seja nesse estudo da dança, especialmente a dança contemporânea onde tanto falamos da individualidade das pessoas e tudo mais. Lembro de há poucos anos ter questionado uma conhecida que havia “caído” numa cesárea e de ter “dado força” para ela, pois se o médico decidiu era pro bem dela. Hoje me sinto péssima pois sei que ela tem muitas chances de estar certa, não precisava ter feito essa cesárea, pois o único problema foi que tempo dela não foi respeitado. E quando decidimos, eu e meu marido, que teríamos um filho comecei a ler sobre…

Tínhamos uma lista de “o que fazer antes do bebê chegar” e antes dessa lista acabar fui me informando e daí que começa essa estória, porque quanto mais a gente lê e se informa, parece que mais dúvidas tem! Eu não tinha ideia do que se tratava um parto normal hospitalar e quando me deparei com o que tem comumente acontecido nos hospitais, fiquei apavorada. Nisso, conheci o CPN (Centro de Parto Natural que fica na Mansão do Caminho, um centro espírita, que além de ter todo seu sistema em torno dessa filosofia é também um centro comunitário assistencial) que atende pelo SUS (sim, nosso Sistema Único de Saúde) e faz um trabalho simplesmente fantástico! Aliás, vale conhecer (pessoalmente ou via site, facebook) pelo simples fato de saber que isso existe. E junto com isso vieram acontecendo amigas gestantes, mais leituras e quando vi eu tinha certeza do que eu queria: um parto domiciliar.

Bom, isso é o que EU queria e me lembro inclusive da cara do meu marido quando eu falava disso. O Guilherme aceitava (aliás, não apenas aceitava como adorava o CPN – e ainda adora(mos)) mas tinha receio do parto domiciliar. Quando assistimos pela primeira vez o filme “O Renascimento do Parto” essa insegurança foi se diluindo. Aliás, pessoalmente eu acho que esse vídeo deveria circular pelas escolas! É muita informação num vídeo só, e não são achismos! São profissionais da saúde renomados tratando de dados, informando! É fantástico!

Saímos do cinema lavados em lágrimas, agarrados a minha então mini-barriguinha da gestação anterior à Aurora (tive uma perda antes da nossa filhota) e decididos que essa seria nossa opção.

Mas ainda havia um problema, no CPN teríamos um parto lindo com toda certeza, e seria de graça! Ou melhor, pago pelos impostos que sempre pagamos e tudo mais. O parto domiciliar é pago e caro, pelo menos para nossa “saúde financeira” e aí começou todo o processo.

Bom, além disso teria o pré-natal. Não achei (nem eu nem amigos meus daqui de Salvador) nenhum médico obstetra que atendesse pelo plano e se dispusesse a fazer um parto normal (quiçá humanizado). Para disponibilizar seu tempo eu teria que pagar uma taxa de parto (que pasmem, é praticamente o preço do parto domiciliar), então, se eu quisesse mesmo um parto normal e não pudesse pagar, eu teria que ir com o plantonista do dia e daí já sabíamos onde íamos acabar pois, em torno de 90% dos partos feitos por planos de saúde acabam em cesárea, mesmo a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomendando que a taxa fique em torno de 15%. Bom, não vou me ater a estas percentagens pois isso pode ser achado na web e varia um pouco de lugar pra lugar, mas de uma coisa eu tinha certeza, eu não queria ser mais uma mulher que acha que vai conseguir o seu sonhado parto normal e depois cair numa (desne)cesárea! Isso me causava um pânico!

Bom, fiquei passeando por várias médicos, vivi situações muito tristes (que nem vou entrar em detalhes aqui, não porque não posso falar sobre… aliás, até a chegada de Aurora eu sempre falei e tal, mas um belo parto faz milagres na nossa memória e isso nem tem sido tão importante mais para mim!) até que encontrei um médico que me atendeu e pareceu ser bem atencioso e tal. Permaneci com esse médico até minhas 34 semanas de gestação, quando decidi que era hora de buscar novos horizontes. Não houve nada de específico mas eu sentia que não era o que eu precisava e enfim… lá fui eu…

Estávamos recebendo a orientação de uma Doula, nossa querida Ana Boulhosas, desde o início da gestação e ela nos encorajou a conhecer a Dr. Sônia Sallenave. Eu conhecia três médicas que trabalham com o parto domiciliar aqui em Salvador e uma parteira. Uma delas, a Dr. Marilena, eu sabia que já estava “cheia” para minhas datas e justamente era a que eu tinha referências do trabalho, já Sônia e Camila eu não conhecia nada e estava meio insegura.

Fomos um dia até o CPN e conversamos com Sônia. Saímos, eu e Guilherme, apaixonados por essa pessoinha! Uma anergia viva! Uma atenção delicada e segura! Nossa vontade (chegamos a armar o plano! hehehe) era sequestrar Sônia e obrigá-la a nos acompanhar! Foi nesse dia que eu e o Guilherme nos olhamos e decidimos: nosso parto seria domiciliar e teríamos que nos virar! A Aurora não podia chegar pagando pela desorganização financeira dos pais dela! Faríamos isso e depois veríamos como pagar tudo!

Decidimos conhecer a Camila também para termos chance de escolher! Aí bateu uma dúvida enorme! Camila também é um amor! Uma delicadeza! E saímos do consultório numa dúvida cruel!

Resolvemos respeitar o “destino” e acabamos escolhendo Sônia tão somente pelo fato que foi com ela que a emergência do parto domiciliar “estourou” em nós! E assim fomos seguindo!

Comecei a consultar com Sônia com 37 semanas! Foi a primeira médica que sentou e olhou cada um daqueles (vários) exames que fazemos durante a gestação, analisou, anotou, enfim! Ela ainda me pediu mais algumas coisas e assim fomos indo, extremamente seguros e ansiosos pela chegada da nossa amadinha!

Uma cena que não sai da minha cabeça aconteceu numa dessas consultas, onde minha mãe foi conhecer Sônia! Ela entrou no consultório já no meio da consulta e cumprimentou a médica educadamente comentando “Um prazer conhecer a médica que fará o parto da minha filha!”! Sônia prontamente respondeu “Muito prazer também, mas o parto quem fará é ela, só vou assistir!”.

Eu juro que queria pular da maca e abraçar as duas! Minha mãe pelo esforço de estar comprando essa ideia conosco (e eu realmente espero que ela se disponha a escrever sobre isso também pois quero muito guardar essas palavras para Aurora poder ler) e a Sônia pelo modo especial de ver isso tudo! Ela não somente falava isso, mas em todos momentos do nosso convívio eu sentia isso! É muito diferente consultar médicas com essa abordagem humanizada! Faz com que nos sintamos capazes de fazer qualquer coisa! É muito especial!

Em seguida conhecemos a enfermeira que nos acompanharia, a Tanila Glaeser! Ela foi na nossa casa e chegou num dia muito especial! O parto já estava chegando (eu já tinha completado 38 semanas) e eu já estava bem sensível! Foi um encontro delicioso! E a partir daí foi só esperar…

Essa equipe que a vida me apresentou foi perfeita! Não me faltaram respostas e sobraram seguranças!

Chegar no dia D assim é uma benção e eu faria TUDO novamente!

Nossa espera foi longa… Aurora quis me provar por A mais B que quem mandava nesse parto não era eu, mas nós duas! Respeitando nosso tempo!

Ela continua me ensinando e me mostrando sua capacidade de ter opinião própria… e é adorável! Muitas vezes difícil, mas adorável!

E foi então que chegou o grande dia…

Eu poderia resumir que meu parto teve 03 dias de pródromos e mais aproximadamente 36 horas de trabalho de parto, mas isso seria simplista por demais! Então vou fazer uma segunda parte desse relato, contando como passamos por isso, eu e ela e toda nossa família e equipe.

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